Além do toque: por que o autoexame deixou de ser recomendado?
Por conta do histórico de câncer de mama e linfoma de Hodgkin em sua família, a designer Elisa Baroni sempre foi muito atenta aos sinais de seu corpo. Antes dos 40 anos, mamografias, ecografias e o acompanhamento médico preventivo já faziam parte da sua rotina anual de cuidados.
Os exames de imagem realizados em março de 2020 atestavam que tudo estava em dia. Dois meses depois, apalpando suas mamas durante o banho, Elisa sentiu algo diferente. Apesar de muito pequeno, dava para perceber que o nódulo não era como uma das alterações habituais que acontecem ao longo do ciclo menstrual.
Aos 38 anos, no consultório do mesmo mastologista que havia tratado sua mãe décadas antes, Elisa recebeu o resultado de sua biópsia: era um carcinoma in situ com múltiplos focos. “Se eu tivesse esperado até o ano seguinte, quando eu normalmente fazia a mamografia, a minha história seria outra”, afirma Elisa.
O autoexame, que durante muito tempo foi visto como uma ferramenta crucial para a detecção precoce do câncer de mama, está passando por uma reavaliação significativa. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer, apenas 35% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama conseguiram identificar o tumor por meio do autoexame.
Embora seja uma forma de autoconhecimento e proximidade com o próprio corpo, a prática pode levar algumas mulheres a acreditarem que está tudo bem com a saúde e adiarem avaliações médicas.
Ainda é comum encontrar recomendações para a realização do autoexame, passada mais de uma década que o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional do Câncer (Inca) deixaram de indicar o autoexame como um método para identificar possíveis tumores.
A cirurgiã oncológica e mastologista Dra. Samira Machado explica que o autoexame foi muito estimulado e orientado durante a década de 90, e foi responsável por colocar a mulher como protagonista no autocuidado e autoavaliação em relação à saúde de suas mamas. “Mas quando falamos em diagnóstico precoce, nos referimos a alterações muito iniciais e assintomáticas, ainda não sentidas ou percebidas pela mulher. Sendo assim, o autoexame não é sensível o suficiente para identificar essas alterações que ainda não causaram sintomas e são silenciosas”, complementa.
A detecção de pequenos caroços, especialmente aqueles com cerca de 1 cm ou ainda restritos ao ducto mamário, onde o câncer pode se originar, é muito difícil por meio do autoexame. E é justamente em estágios iniciais, quando o tumor é tão pequeno quanto um botão de camisa, que as chances de cura chegam a 95%.
Autoexame: fazer ou não?
O autoexame das mamas é uma abordagem que muitas mulheres aprenderam e se sentem mais à vontade em realizar, pois é algo que pode ser feito em casa, sem a necessidade de equipamento médico especializado.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec), em colaboração com a Pfizer, revelou que 64% das mulheres consultadas acreditavam que o autoexame era o principal meio para o diagnóstico precoce do câncer de mama.
Mais da metade (54%) das mulheres que foram questionadas demonstraram incerteza sobre a importância de realizar a mamografia, especialmente quando outros testes não mostram nenhuma mudança. Destas, 38% acreditam que a mamografia só é necessária se houver suspeita em outros exames, enquanto 16% não souberam dar uma opinião.
Além disso, cerca de metade das participantes (51%) não está informada sobre a frequência adequada para fazer o exame. Por outro lado, 30% das entrevistadas acreditam equivocadamente que, após a primeira mamografia com resultado normal, não é mais necessário fazer o exame, confiando apenas no autoexame em casa.
Para Dra. Samira Machado, existe ainda um certo medo e preconceito de muitas mulheres em relação à mamografia, tanto por questões pessoais quanto sociais. “Muitas mulheres julgam o exame como desconfortável e dolorido, criando uma imagem negativa sobre a mamografia. Além disso, observamos que muitas fake news corroboram para desestimular e desencorajar as mulheres a realizar o exame, alimentando o medo do câncer”, observa a mastologista.
Outro aspecto importante é que, no sistema público de saúde, a orientação é realizar a mamografia a cada dois anos. “Isso também desestimula a mulher a criar o compromisso de fazer o exame e reforça a informação de que o autoexame é suficiente”, complementa Dra. Samira.
Rosa para além de outubro
Prevenção nunca foi um tabu na casa de Elisa, mas esse autocuidado ganhou um significado a mais com as experiências que teve ao longo da sua vida. “Foi muito pesado acompanhar os dois cânceres de mama que minha mãe teve, especialmente porque eu era jovem na época. Então, eu sempre me ‘adiantei’, me cuidei, para descobrir cedo a doença e evitar que meus filhos me vissem enfrentando o câncer em um estágio mais avançado”, afirma Elisa.
Com o aconselhamento médico, ela optou por fazer a retirada das duas mamas, em uma cirurgia chamada adenomastectomia bilateral, substituindo as mamas por duas próteses. O tratamento seguiu com 15 sessões de radioterapia e, até hoje, com o uso de um medicamento que age ajudando a controlar o crescimento de células cancerosas que dependem do hormônio estrogênio para se desenvolverem.
“Fiquei tranquila com o diagnóstico porque descobri o câncer cedo. Hoje eu falo para as minhas amigas, conto a minha história para as mulheres, incentivando a observarem seus corpos. O estigma do câncer está sendo ressignificado justamente por histórias como a minha”, reforça.
MAMA MAG é uma iniciativa do MAMA. Semanalmente, publicamos entrevistas e reportagens sobre assuntos que conectam arte, cultura, tecnologia, saúde e bem-estar.
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Além do toque: por que o autoexame deixou de ser recomendado?
Por conta do histórico de câncer de mama e linfoma de Hodgkin em sua família, a designer Elisa Baroni sempre foi muito atenta aos sinais de seu corpo. Antes dos 40 anos, mamografias, ecografias e o acompanhamento médico preventivo já faziam parte da sua rotina anual de cuidados.
Os exames de imagem realizados em março de 2020 atestavam que tudo estava em dia. Dois meses depois, apalpando suas mamas durante o banho, Elisa sentiu algo diferente. Apesar de muito pequeno, dava para perceber que o nódulo não era como uma das alterações habituais que acontecem ao longo do ciclo menstrual.
Aos 38 anos, no consultório do mesmo mastologista que havia tratado sua mãe décadas antes, Elisa recebeu o resultado de sua biópsia: era um carcinoma in situ com múltiplos focos. “Se eu tivesse esperado até o ano seguinte, quando eu normalmente fazia a mamografia, a minha história seria outra”, afirma Elisa.
O autoexame, que durante muito tempo foi visto como uma ferramenta crucial para a detecção precoce do câncer de mama, está passando por uma reavaliação significativa. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer, apenas 35% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama conseguiram identificar o tumor por meio do autoexame.
Embora seja uma forma de autoconhecimento e proximidade com o próprio corpo, a prática pode levar algumas mulheres a acreditarem que está tudo bem com a saúde e adiarem avaliações médicas.
Ainda é comum encontrar recomendações para a realização do autoexame, passada mais de uma década que o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional do Câncer (Inca) deixaram de indicar o autoexame como um método para identificar possíveis tumores.
A cirurgiã oncológica e mastologista Dra. Samira Machado explica que o autoexame foi muito estimulado e orientado durante a década de 90, e foi responsável por colocar a mulher como protagonista no autocuidado e autoavaliação em relação à saúde de suas mamas. “Mas quando falamos em diagnóstico precoce, nos referimos a alterações muito iniciais e assintomáticas, ainda não sentidas ou percebidas pela mulher. Sendo assim, o autoexame não é sensível o suficiente para identificar essas alterações que ainda não causaram sintomas e são silenciosas”, complementa.
A detecção de pequenos caroços, especialmente aqueles com cerca de 1 cm ou ainda restritos ao ducto mamário, onde o câncer pode se originar, é muito difícil por meio do autoexame. E é justamente em estágios iniciais, quando o tumor é tão pequeno quanto um botão de camisa, que as chances de cura chegam a 95%.
Autoexame: fazer ou não?
O autoexame das mamas é uma abordagem que muitas mulheres aprenderam e se sentem mais à vontade em realizar, pois é algo que pode ser feito em casa, sem a necessidade de equipamento médico especializado.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec), em colaboração com a Pfizer, revelou que 64% das mulheres consultadas acreditavam que o autoexame era o principal meio para o diagnóstico precoce do câncer de mama.
Mais da metade (54%) das mulheres que foram questionadas demonstraram incerteza sobre a importância de realizar a mamografia, especialmente quando outros testes não mostram nenhuma mudança. Destas, 38% acreditam que a mamografia só é necessária se houver suspeita em outros exames, enquanto 16% não souberam dar uma opinião.
Além disso, cerca de metade das participantes (51%) não está informada sobre a frequência adequada para fazer o exame. Por outro lado, 30% das entrevistadas acreditam equivocadamente que, após a primeira mamografia com resultado normal, não é mais necessário fazer o exame, confiando apenas no autoexame em casa.
Para Dra. Samira Machado, existe ainda um certo medo e preconceito de muitas mulheres em relação à mamografia, tanto por questões pessoais quanto sociais. “Muitas mulheres julgam o exame como desconfortável e dolorido, criando uma imagem negativa sobre a mamografia. Além disso, observamos que muitas fake news corroboram para desestimular e desencorajar as mulheres a realizar o exame, alimentando o medo do câncer”, observa a mastologista.
Outro aspecto importante é que, no sistema público de saúde, a orientação é realizar a mamografia a cada dois anos. “Isso também desestimula a mulher a criar o compromisso de fazer o exame e reforça a informação de que o autoexame é suficiente”, complementa Dra. Samira.
Rosa para além de outubro
Prevenção nunca foi um tabu na casa de Elisa, mas esse autocuidado ganhou um significado a mais com as experiências que teve ao longo da sua vida. “Foi muito pesado acompanhar os dois cânceres de mama que minha mãe teve, especialmente porque eu era jovem na época. Então, eu sempre me ‘adiantei’, me cuidei, para descobrir cedo a doença e evitar que meus filhos me vissem enfrentando o câncer em um estágio mais avançado”, afirma Elisa.
Com o aconselhamento médico, ela optou por fazer a retirada das duas mamas, em uma cirurgia chamada adenomastectomia bilateral, substituindo as mamas por duas próteses. O tratamento seguiu com 15 sessões de radioterapia e, até hoje, com o uso de um medicamento que age ajudando a controlar o crescimento de células cancerosas que dependem do hormônio estrogênio para se desenvolverem.
“Fiquei tranquila com o diagnóstico porque descobri o câncer cedo. Hoje eu falo para as minhas amigas, conto a minha história para as mulheres, incentivando a observarem seus corpos. O estigma do câncer está sendo ressignificado justamente por histórias como a minha”, reforça.
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