Denilson Baniwa: “indígenas precisam se reconhecer dentro dos projetos que existem no Brasil”
Por séculos, conquistadores, viajantes e artistas europeus produziram inúmeras ilustrações dos povos nativos e das paisagens das Américas para o público em todo o mundo. Essas representações – parte factuais, parte ficcionais – baseavam-se tanto na observação quanto nas fantasias europeias sobre o desconhecido.
Das imagens de habitantes “exóticos” à fauna fantástica, essas estampas criaram estereótipos que ainda persistem. São esses elementos da arte colonial que, muitas vezes, Denilson Baniwa combina com suas próprias referências e tradições culturais para questionar a forma como os não-indígenas vêem os povos originários.
Em uma conversa com o MAMA, Denilson fala sobre a presença indígena na arte, suas pesquisas atuais e como sua força de trabalho contribui para o acolhimento de quem se vê apartado dos projetos que existem no Brasil.
Resgatar e criar memórias
Seu berço se chama Baniwa, povo cujo território ancestral é a região fronteiriça entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela. Uma cultura milenar, com histórias tão antigas que são anteriores à criação do universo.
A terra que sempre lhe nutriu também é inspiração para a produção artística de Denilson. O compartilhamento do sentir e das memórias com seu povo são a base do seu pensamento.
Aliado a isso, seu percurso de formação se iniciou no Movimento Indígena Amazônico, passando pelos estudos na Escola Superior de Tecnologia, em Manaus, e pela graduação na Escola de Comunicação, no Rio de Janeiro.
No Movimento Indígena, trabalhou na área de comunicação, espaço que envolvia um contato mais próximo com a produção artística. Quando se mudou para o Rio, não passava por sua cabeça a ideia de ser artista: a arte era algo para si e para presentear amigos e familiares.
Em 2016, Denilson foi convidado para integrar a exposição Dja Guara Porã e, a partir daí, passou a se ver como artista e como ponto de provocação.
Foi um ponto de virada para mim, estar na Dja Guata Porã me fez pensar muito sobre a inserção de indígenas nos espaços de Arte do Brasil. Desde então minha vida é totalmente dedicada às pesquisas e à produção artística.
Através da pintura, do vídeo, da música e das intervenções urbanas, Denilson expressa o seu povo e o que acredita, “traduzindo” as histórias e os sentimentos para a “linguagem não baniwa”.
Até o fim de julho (2023), a sua instalação “Escola Panapaná” pode ser visitada na Pinacoteca de São Paulo. O projeto consiste em uma construção em três pavimentos que serve como um espaço multifuncional para aulas de línguas e culturas indígenas, artes e música. As atividades desenvolvidas nessa instalação artística são ministradas por diversos convidados.
A estrutura inicialmente lembra a forma de um casulo, simbolizando o processo educacional. Ao longo do período em exposição, se transformará em uma mariposa – representando a metamorfose e a transformação que ocorrem durante o processo de aprendizagem. A palavra "panapaná" significa justamente o coletivo de borboletas, ressaltando uma consciência coletiva e também a ideia de dispersão e migração dos ensinamentos.
Sua pesquisa atual parte da documentação oficial do Estado Brasileiro, buscando as aparições (ou os desaparecimentos) de indígenas nestes documentos. Este levantamento serve de base para repensar a ocupação indígena e sua participação na construção do país.
Ao mesmo tempo, o artista também se dedica a estudar as cosmologias indígenas e suas representações artísticas. No horizonte, sua busca mira na criação de uma forma de compartilhar esses conhecimentos com pessoas não-indígenas e, ao mesmo tempo, criar um banco de dados.
Vida e arte, senso coletivo
A distância entre sua terra natal e sua nova casa, Niterói (RJ), não pode ser medida somente em quilômetros. A escolha, porém, era necessária para ser mais ativo na inserção da arte indígena no cenário brasileiro.
Na primeira vez que a minha comunidade reagiu ao que eu estava fazendo nas artes, foi uma surpresa e uma renovação de força para continuar trabalhando. Eu não fazia ideia de que eles me acompanhavam de longe e sabiam o que eu estava fazendo, então receber essa resposta positiva deles, com certeza, foi uma alegria.
Seu pensamento, seu discurso e sua postura desconhecem o individualismo. Ele faz questão de debater o porquê da arte indíga ser vista como mero artesanato e também a (pouca) presença de artistas indígenas.
Acredito que ninguém chega a alguns lugares sozinhos, então quem tiver algum sonho, desejo, vontade de construir algo novo, a primeira coisa que tem que fazer é saber quem são seus aliados e parceiros neste caminho, e fazer do coletivo uma união forte.
É esse senso de coletividade que despertou em Denilson a vontade de estar junto ao MAMA. Seus trabalhos já carregam uma profunda ligação com a saúde física, mental e social das comunidades indígenas. No movimento MAMA, o artista também se vê como uma ponte para que as culturas de prevenção cheguem mais longe.
Eu sinto que, como artista de origem indígena, faz todo sentido estar junto no movimento MAMA, pois os indígenas de um modo geral, precisam se reconhecer dentro dos projetos que existem no Brasil. Se eu posso, com meu trabalho e minha presença, ser capaz de acolher e de ser reconhecível como um “parente indígena” dentro do MAMA, eu fico feliz.
Para ele, a arte sempre esteve ligada às questões sociais, incluindo a saúde. Desta maneira, pode ser uma mola propulsora de projetos que viabilizem os direitos humanos, com potencial de alcançar pessoas que, muitas vezes, não têm acesso.
Minha força de trabalho é para que, em qualquer espaço, pessoas indígenas encontrem alguém parecido com elas e se sintam mais que representadas: acolhidas. O movimento MAMA é de muita importância, então nada mais justo que eu estar junto fazendo com que ele chegue a mais pessoas, incluindo as comunidades indígenas.
A ancestralidade respeitada e preservada
A marca de Denilson transcende as fronteiras. Com exposições no Canadá, Estados Unidos, França e Austrália, ele se estabeleceu como uma das principais vozes no rompimento de paradigmas, abrindo caminho para diversos artistas.
Imagino que em algum tempo próximo estaremos vivendo um cenário parecido com o Canadá, onde artistas e curadores de origem indígena ocupam de maneira importante muitos espaços no cenário artístico, não só como participantes de exposições e mostras, mas como pensadores críticos deste cenário, escrevendo, debatendo e criando possibilidades de construção de um novo momento nas Artes.
Além da ocupação de espaços, sua arte é impulsionada pela busca por melhores condições de vida para seu povo. É veículo para expressar as lutas e as demandas de sua comunidade, destacando questões como a preservação cultural, a defesa dos direitos indígenas, a preservação da floresta e a busca pela paz.
Deriva disso o sonho de escrever um livro e de criar escolas de arte voltadas para jovens indígenas no Brasil, com o objetivo de promover o desenvolvimento e a valorização de talentos. Mais do que resistência, a arte assim se torna palco para o protagonismo.
MAMA MAG é uma iniciativa do MAMA. Semanalmente, publicamos entrevistas e reportagens sobre assuntos que conectam arte, cultura, tecnologia, saúde e bem-estar.
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Marcela Cantuária: “A arte precisa ser porosa, saber se envolver em diferentes assuntos profundamente”.
Por séculos, conquistadores, viajantes e artistas europeus produziram inúmeras ilustrações dos povos nativos e das paisagens das Américas para o público em todo o mundo. Essas representações – parte factuais, parte ficcionais – baseavam-se tanto na observação quanto nas fantasias europeias sobre o desconhecido.
Das imagens de habitantes “exóticos” à fauna fantástica, essas estampas criaram estereótipos que ainda persistem. São esses elementos da arte colonial que, muitas vezes, Denilson Baniwa combina com suas próprias referências e tradições culturais para questionar a forma como os não-indígenas vêem os povos originários.
Em uma conversa com o MAMA, Denilson fala sobre a presença indígena na arte, suas pesquisas atuais e como sua força de trabalho contribui para o acolhimento de quem se vê apartado dos projetos que existem no Brasil.
Resgatar e criar memórias
Seu berço se chama Baniwa, povo cujo território ancestral é a região fronteiriça entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela. Uma cultura milenar, com histórias tão antigas que são anteriores à criação do universo.
A terra que sempre lhe nutriu também é inspiração para a produção artística de Denilson. O compartilhamento do sentir e das memórias com seu povo são a base do seu pensamento.
Aliado a isso, seu percurso de formação se iniciou no Movimento Indígena Amazônico, passando pelos estudos na Escola Superior de Tecnologia, em Manaus, e pela graduação na Escola de Comunicação, no Rio de Janeiro.
No Movimento Indígena, trabalhou na área de comunicação, espaço que envolvia um contato mais próximo com a produção artística. Quando se mudou para o Rio, não passava por sua cabeça a ideia de ser artista: a arte era algo para si e para presentear amigos e familiares.
Em 2016, Denilson foi convidado para integrar a exposição Dja Guara Porã e, a partir daí, passou a se ver como artista e como ponto de provocação.
Foi um ponto de virada para mim, estar na Dja Guata Porã me fez pensar muito sobre a inserção de indígenas nos espaços de Arte do Brasil. Desde então minha vida é totalmente dedicada às pesquisas e à produção artística.
Através da pintura, do vídeo, da música e das intervenções urbanas, Denilson expressa o seu povo e o que acredita, “traduzindo” as histórias e os sentimentos para a “linguagem não baniwa”.
Até o fim de julho (2023), a sua instalação “Escola Panapaná” pode ser visitada na Pinacoteca de São Paulo. O projeto consiste em uma construção em três pavimentos que serve como um espaço multifuncional para aulas de línguas e culturas indígenas, artes e música. As atividades desenvolvidas nessa instalação artística são ministradas por diversos convidados.
A estrutura inicialmente lembra a forma de um casulo, simbolizando o processo educacional. Ao longo do período em exposição, se transformará em uma mariposa – representando a metamorfose e a transformação que ocorrem durante o processo de aprendizagem. A palavra "panapaná" significa justamente o coletivo de borboletas, ressaltando uma consciência coletiva e também a ideia de dispersão e migração dos ensinamentos.
Sua pesquisa atual parte da documentação oficial do Estado Brasileiro, buscando as aparições (ou os desaparecimentos) de indígenas nestes documentos. Este levantamento serve de base para repensar a ocupação indígena e sua participação na construção do país.
Ao mesmo tempo, o artista também se dedica a estudar as cosmologias indígenas e suas representações artísticas. No horizonte, sua busca mira na criação de uma forma de compartilhar esses conhecimentos com pessoas não-indígenas e, ao mesmo tempo, criar um banco de dados.
A arte (da) cura
“Eu acredito que a arte precisa ser porosa, saber se envolver em diferentes assuntos profundamente”, destaca. É essa motivação que conecta o trabalho de Marcela ao MAMA.
“Eu fico muito honrada de usar meu trabalho como ferramenta de empoderamento para mulheres que enfrentam a luta contra o câncer de mama. É legal ver o trabalho alcançando lugares prospectivos além da inspiração, a própria emancipação”.
Hoje, a sua arte colore a visão e aflora o sentir dos pacientes do Hospital de Clínicas de São Paulo. O oratório que desenvolveu para o lançamento do álbum “Portas”, da cantora Marisa Monte, é um espaço acolhedor de leitura, música e imaginação. “É legal perceber como a arte pode ser uma grande aliada da cura”, reforça.
O presente-futuro em perspectiva
A obra de Marcela está representada em várias coleções, incluindo Pérez Art Museum Miami (EUA), Museu de Arte de São Paulo (BR), Assis Chateaubriand MAC-PE (BR), Pinacoteca do Estado de São Paulo (BR), Museu da Maré, RJ (BR).
Há pouco, a artista plástica participou de uma residência artística na L’airs, em Paris. Sua conexão com a cerâmica levou-a também a Portugal, na Bordallo Pinheiro, onde experimentou novas técnicas e materiais em suas criações. Atualmente, suas obras também podem ser apreciadas em uma exposição individual na Galeria Insofar, em Lisboa.
"Eu quero continuar fazendo arte pra sempre, construindo novos mundos com a pintura, que seja faísca para realizações coletivas e que eu consiga promover muitas mobilizações com a arte”.
MAMA MAG é uma iniciativa do MAMA. Semanalmente, publicamos entrevistas e reportagens sobre assuntos que conectam arte, cultura, tecnologia, saúde e bem-estar.
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