Larissa de Souza: “se manifestar através da arte pode promover cura e autoconhecimento”
No universo da arte contemporânea, Larissa de Souza emerge como uma artista cuja paleta criativa entrelaça memórias, desejos e ancestralidade. Criada em uma ocupação em São Paulo, sua jornada autodidata celebra a única herança que lhe foi dada: a cultural.
A figura central de suas obras é a imagem da mulher preta, e cada traço, cada textura, cada cor, é uma declaração de amor à diversidade – de corpos, histórias e expressões. Suas pinceladas evidenciam temas como identidade e representatividade, mergulhando nas profundezas do pertencimento.
Seu olhar sobre o feminino conecta Larissa ao MAMA. Em entrevista à nossa revista, a artista conversa sobre sua poética, seus projetos futuros e também sobre os desafios do autocuidado. Confira:
Mulher, protagonista nas telas e na própria vida
A infância em uma ocupação, ainda que muito rica culturalmente pelas bagagens que cada pessoa carregava consigo e compartilhava naquele espaço comum, tinha diversas barreiras e limitações. Não foram os livros ou as visitas aos museus, tão inacessíveis, que introduziram a arte na vida de Larissa, mas a própria cidade.
“Apesar de eu não ter tido referência artística dentro de casa, a arte sempre esteve e está ao nosso redor. A rua me mostrou isso. Depois de um tempo, na adolescência, eu comecei a praticar mais o desenho e a pintura de uma forma livre e curiosa, sem muito acesso a materiais e referências artísticas de pessoas como eu, era um desafio. Porém, nessa época eu já sonhava em ser artista, mas não conhecia ninguém do meu universo que vivesse dessa profissão”.
O tempo passou, e Larissa encontrou um emprego como vendedora em uma loja de materiais de pintura em São Paulo, onde também eram oferecidas oficinas. Durante quatro anos, ela mergulhou nesse mundo, aprendendo sobre técnicas de pintura, materiais e conhecendo diversos artistas. Mais tarde, trabalhou por um ano como assistente de arte no local onde ocorriam os cursos, o que lhe proporcionou um período rico em aprendizado e contatos no mundo artístico.
Além da pintura, seu domínio das técnicas é evidenciado por suas colagens de objetos e tecidos, bordados meticulosamente concebidos, molduras imersas em resina e pinceladas texturizadas que criam uma coreografia visual única.
O tema “mulher”, central na poética de Larissa, surgiu de forma inconsciente:
“No começo, eu pintava muitas mulheres, sem me dar conta do que estava fazendo, até alguém me perguntar o porquê dessas representações, então num momento de autoanálise, entendi que pintar majoritariamente mulheres, tem a ver com o lugar que cresci: fui criada pela minha mãe e avó. Cresci numa ocupação em São Paulo, rodeada de mulheres pretas, nordestinas e mães solo”.
Com a chegada da pandemia, Larissa passou a trabalhar em casa, criando conteúdo para a página de cursos, compartilhando dicas e técnicas de pintura. Ao mesmo tempo, aproveitou o tempo livre para expressar sua arte, uma forma de lidar com a ansiedade.
“Nesse momento, encontrei minha identidade visual, não só na estética de cores, mas também nos temas em que eu sentia a necessidade de abordar. Sem pretensão alguma, publiquei minhas criações na rede social e tive muita procura. Foi um momento muito emotivo para mim. E me vi numa encruzilhada, entre continuar com o trabalho com carteira assinada ou tentar viver um sonho. Uma decisão que foi tomada com muito medo e amor. Tudo era tão incerto, mas eu precisava me arriscar.”
Foi na sua primeira exposição individual na Galeria HOA Tour, que suas telas se tornaram janelas para um universo de identidade e pertencimento. Hoje, no Museu de Arte do Rio (MAR) e no Museu de Arte de São Paulo (MASP), suas obras encontram um lar.
Além das paredes dessas prestigiosas instituições, Larissa brilha em exposições coletivas e feiras de arte tanto em solo nacional quanto internacional. Em 2023, Larissa de Souza transcendeu fronteiras e apresentou sua primeira exposição individual internacional na Galeria Albertz Benda, em Nova Iorque, sob o título "Paredes que Contam Histórias".
Atualmente, Larissa conduz suas pesquisas artísticas por um território profundamente pessoal e subjetivo. Ela explora sentimentos inquietantes e introspectivos, e o surrealismo é uma influência marcante em sua obra.
“Dentro dessas pesquisas, eu trago meus sonhos para a pintura. Estive sonhando com crianças repetidamente, então senti o desejo de criar uma série que fala sobre a infância. Nos últimos tempos de minha criação, de modo geral, falam sobre a vida cotidiana de mulheres pretas brasileiras, memória, ancestralidade e desejo”.
Arte como cura e autoconhecimento
Com uma visão nítida do poder transformador da arte e da prevenção, Larissa é multiplicadora do movimento MAMA, onde busca conectar experiências de vida e arte em busca de representatividade e cura.
“Através do MAMA, quero poder trazer a informação preventiva às mulheres racializadas desse país. Acredito que a representatividade e o pertencimento, através da arte, são um bom começo para espalhar a informação para a prevenção do câncer de mama.”
Para ela, a arte não é apenas uma forma de expressão, mas também uma ferramenta terapêutica e de autoconhecimento. Um de seus exemplos e inspirações é Nise da Silveira, médica psiquiatra reconhecida por sua abordagem humanizada no tratamento de transtornos mentais.
“A arte faz parte da manifestação humana, mas vivemos numa cultura onde estamos cada vez mais desconectados disso. Onde se acredita que o criar seria apenas um dom. Fazer arte é tão natural quanto a natureza. Faz parte da gente”.
Muitas famílias brasileiras são lideradas por mulheres que, além de suas responsabilidades domésticas, têm que trabalhar fora de casa. Isso deixa pouco tempo e recursos para cuidar de si, especialmente da saúde física e mental. Larissa acredita que há falta de informação qualificada e acessível sobre a prevenção do câncer de mama nos serviços de saúde pública e nas mídias sociais, onde ela percebe que o MAMA tem um potencial para preencher essa lacuna.
As pinceladas do futuro
"O maior desafio que enfrento é contra mim mesma", comenta Larissa, referindo-se ao enfrentamento da “síndrome do impostor”, um sentimento de dúvida e insegurança que muitas pessoas têm, mesmo quando são competentes e bem-sucedidas em suas atividades. É como se elas acreditassem que não merecem seus próprios sucessos e que, a qualquer momento, alguém poderá descobrir que elas são "fraudes".
“A síndrome do impostor, que não nasce sozinho dentro da gente, existe toda uma construção social e racial em cima disso. Tenho o desafio de olhar para minha história e a história da minha família com carinho e entender todos os dias a importância de estar fazendo arte hoje.”
Dentro do cenário artístico, Larissa destaca outro desafio significativo: a falta de representação de mulheres negras. "Acredito que o maior desafio é ver poucas mulheres pretas artistas ocupando esses espaços", ela diz. Sua presença na cena artística é um testemunho de sua resiliência e determinação em quebrar essas barreiras para abrir caminho para outras artistas.
Quando questionada sobre suas perspectivas pessoais e futuros sonhos, Larissa compartilha o desejo de ter mais tempo para se dedicar e cuidar de sua saúde, além de capitanear projetos artísticos e educacionais:
“Eu sonho em ter um espaço de arte, onde haverá aulas, palestras e residência artística. Um lugar acessível e acolhedor”.
MAMA MAG é uma iniciativa do MAMA. Semanalmente, publicamos entrevistas e reportagens sobre assuntos que conectam arte, cultura, tecnologia, saúde e bem-estar.
Acompanhe nossa CURAdoria:
Larissa de Souza: “se manifestar através da arte pode promover cura e autoconhecimento”
No universo da arte contemporânea, Larissa de Souza emerge como uma artista cuja paleta criativa entrelaça memórias, desejos e ancestralidade. Criada em uma ocupação em São Paulo, sua jornada autodidata celebra a única herança que lhe foi dada: a cultural.
A figura central de suas obras é a imagem da mulher preta, e cada traço, cada textura, cada cor, é uma declaração de amor à diversidade – de corpos, histórias e expressões. Suas pinceladas evidenciam temas como identidade e representatividade, mergulhando nas profundezas do pertencimento.
Seu olhar sobre o feminino conecta Larissa ao MAMA. Em entrevista à nossa revista, a artista conversa sobre sua poética, seus projetos futuros e também sobre os desafios do autocuidado. Confira:
Mulher, protagonista nas telas e na própria vida
A infância em uma ocupação, ainda que muito rica culturalmente pelas bagagens que cada pessoa carregava consigo e compartilhava naquele espaço comum, tinha diversas barreiras e limitações. Não foram os livros ou as visitas aos museus, tão inacessíveis, que introduziram a arte na vida de Larissa, mas a própria cidade.
“Apesar de eu não ter tido referência artística dentro de casa, a arte sempre esteve e está ao nosso redor. A rua me mostrou isso. Depois de um tempo, na adolescência, eu comecei a praticar mais o desenho e a pintura de uma forma livre e curiosa, sem muito acesso a materiais e referências artísticas de pessoas como eu, era um desafio. Porém, nessa época eu já sonhava em ser artista, mas não conhecia ninguém do meu universo que vivesse dessa profissão”.
O tempo passou, e Larissa encontrou um emprego como vendedora em uma loja de materiais de pintura em São Paulo, onde também eram oferecidas oficinas. Durante quatro anos, ela mergulhou nesse mundo, aprendendo sobre técnicas de pintura, materiais e conhecendo diversos artistas. Mais tarde, trabalhou por um ano como assistente de arte no local onde ocorriam os cursos, o que lhe proporcionou um período rico em aprendizado e contatos no mundo artístico.
Além da pintura, seu domínio das técnicas é evidenciado por suas colagens de objetos e tecidos, bordados meticulosamente concebidos, molduras imersas em resina e pinceladas texturizadas que criam uma coreografia visual única.
O tema “mulher”, central na poética de Larissa, surgiu de forma inconsciente:
“No começo, eu pintava muitas mulheres, sem me dar conta do que estava fazendo, até alguém me perguntar o porquê dessas representações, então num momento de autoanálise, entendi que pintar majoritariamente mulheres, tem a ver com o lugar que cresci: fui criada pela minha mãe e avó. Cresci numa ocupação em São Paulo, rodeada de mulheres pretas, nordestinas e mães solo”.
Com a chegada da pandemia, Larissa passou a trabalhar em casa, criando conteúdo para a página de cursos, compartilhando dicas e técnicas de pintura. Ao mesmo tempo, aproveitou o tempo livre para expressar sua arte, uma forma de lidar com a ansiedade.
“Nesse momento, encontrei minha identidade visual, não só na estética de cores, mas também nos temas em que eu sentia a necessidade de abordar. Sem pretensão alguma, publiquei minhas criações na rede social e tive muita procura. Foi um momento muito emotivo para mim. E me vi numa encruzilhada, entre continuar com o trabalho com carteira assinada ou tentar viver um sonho. Uma decisão que foi tomada com muito medo e amor. Tudo era tão incerto, mas eu precisava me arriscar.”
Foi na sua primeira exposição individual na Galeria HOA Tour, que suas telas se tornaram janelas para um universo de identidade e pertencimento. Hoje, no Museu de Arte do Rio (MAR) e no Museu de Arte de São Paulo (MASP), suas obras encontram um lar.
Além das paredes dessas prestigiosas instituições, Larissa brilha em exposições coletivas e feiras de arte tanto em solo nacional quanto internacional. Em 2023, Larissa de Souza transcendeu fronteiras e apresentou sua primeira exposição individual internacional na Galeria Albertz Benda, em Nova Iorque, sob o título "Paredes que Contam Histórias".
Atualmente, Larissa conduz suas pesquisas artísticas por um território profundamente pessoal e subjetivo. Ela explora sentimentos inquietantes e introspectivos, e o surrealismo é uma influência marcante em sua obra.
“Dentro dessas pesquisas, eu trago meus sonhos para a pintura. Estive sonhando com crianças repetidamente, então senti o desejo de criar uma série que fala sobre a infância. Nos últimos tempos de minha criação, de modo geral, falam sobre a vida cotidiana de mulheres pretas brasileiras, memória, ancestralidade e desejo”.
Arte como cura e autoconhecimento
Com uma visão nítida do poder transformador da arte e da prevenção, Larissa é multiplicadora do movimento MAMA, onde busca conectar experiências de vida e arte em busca de representatividade e cura.
“Através do MAMA, quero poder trazer a informação preventiva às mulheres racializadas desse país. Acredito que a representatividade e o pertencimento, através da arte, são um bom começo para espalhar a informação para a prevenção do câncer de mama.”
Para ela, a arte não é apenas uma forma de expressão, mas também uma ferramenta terapêutica e de autoconhecimento. Um de seus exemplos e inspirações é Nise da Silveira, médica psiquiatra reconhecida por sua abordagem humanizada no tratamento de transtornos mentais.
“A arte faz parte da manifestação humana, mas vivemos numa cultura onde estamos cada vez mais desconectados disso. Onde se acredita que o criar seria apenas um dom. Fazer arte é tão natural quanto a natureza. Faz parte da gente”.
Muitas famílias brasileiras são lideradas por mulheres que, além de suas responsabilidades domésticas, têm que trabalhar fora de casa. Isso deixa pouco tempo e recursos para cuidar de si, especialmente da saúde física e mental. Larissa acredita que há falta de informação qualificada e acessível sobre a prevenção do câncer de mama nos serviços de saúde pública e nas mídias sociais, onde ela percebe que o MAMA tem um potencial para preencher essa lacuna.
As pinceladas do futuro
"O maior desafio que enfrento é contra mim mesma", comenta Larissa, referindo-se ao enfrentamento da “síndrome do impostor”, um sentimento de dúvida e insegurança que muitas pessoas têm, mesmo quando são competentes e bem-sucedidas em suas atividades. É como se elas acreditassem que não merecem seus próprios sucessos e que, a qualquer momento, alguém poderá descobrir que elas são "fraudes".
“A síndrome do impostor, que não nasce sozinho dentro da gente, existe toda uma construção social e racial em cima disso. Tenho o desafio de olhar para minha história e a história da minha família com carinho e entender todos os dias a importância de estar fazendo arte hoje.”
Dentro do cenário artístico, Larissa destaca outro desafio significativo: a falta de representação de mulheres negras. "Acredito que o maior desafio é ver poucas mulheres pretas artistas ocupando esses espaços", ela diz. Sua presença na cena artística é um testemunho de sua resiliência e determinação em quebrar essas barreiras para abrir caminho para outras artistas.
Quando questionada sobre suas perspectivas pessoais e futuros sonhos, Larissa compartilha o desejo de ter mais tempo para se dedicar e cuidar de sua saúde, além de capitanear projetos artísticos e educacionais:
“Eu sonho em ter um espaço de arte, onde haverá aulas, palestras e residência artística. Um lugar acessível e acolhedor”.
MAMA MAG é uma iniciativa do MAMA. Semanalmente, publicamos entrevistas e reportagens sobre assuntos que conectam arte, cultura, tecnologia, saúde e bem-estar.
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