Muito jovem para a mamografia: o câncer de mama antes dos 40
Se você tem menos de 40 anos, pode pensar que é muito jovem para ter câncer de mama – mas isso não é verdade. Embora raro, é o câncer mais comum entre as mulheres de 15 a 35 anos.
A doença está crescendo justamente na faixa etária que não é coberta pelos programas de rastreamento. Por consequência disso, há ainda mais em risco de descobrir a neoplasia quando ela já está relativamente avançada.
Desde 2020, a incidência da doença passou de 2% para 5% entre mulheres até 35 anos. Apesar disso, 25% das jovens não sabem que o câncer de mama pode afetá-las, segundo um levantamento da CoppaFeel!, instituição inglesa de conscientização sobre a doença. E elas são o grupo demográfico com maior probabilidade de adiar uma visita ao médico.
Ainda não existe uma forma eficaz de rastreio para mulheres com menos de 40 anos. Isso ocorre porque a maioria têm tecido mamário denso, o que impede que as mamografias de rotina sejam uma ferramenta útil. Há uma chance maior de um resultado falso positivo (a mamografia parece sugerir um câncer de mama onde não há) ou um resultado falso negativo (onde um câncer de mama presente não aparece na mamografia) .
Aliado a isso está o fato de que a maioria das campanhas de conscientização e prevenção não conversam com esta faixa etária. “O que é passado pela mídia é o básico, focando na questão do autoexame. Focam na mulher madura, de 40, 50 anos, e as jovens não têm representatividade e/ou incentivo para fazer um acompanhamento”, avalia Jéssica Custódio, de 32 anos.
Aos 17, Jéssica sentia muita dor e desconforto na mama. Ao investigar, descobriu que tinha nódulos benignos. Na época, conciliou o término do ensino médio, o estágio e a recuperação de uma cirurgia para a retirada dos tumores. “Foi bem chocante, foi bem difícil. Mexe com autoestima, a forma como você se vê. Sou de uma geração que o corpo, a estética feminina, eram muito julgados e padronizados. Então, foi muito difícil, assim, eu sempre me escondia. Colocar um biquíni, depois de passar pela cirurgia, foi muito difícil”, relata.
As vivências das jovens que passam pelo câncer de mama
No Brasil, mais de 3 mil mulheres jovens são diagnosticadas todos os anos e enfrentam desafios diferentes daqueles vividos pelas mais velhas. São as jovens que têm menor estabilidade financeira e também de carreira profissional. Muitas também têm filhos pequenos e não contam com rede de apoio.
O diagnóstico de câncer de mama também cria incerteza sobre ter uma família, uma vez que os tratamentos podem afetar a fertilidade e também a sexualidade da mulher. “Eu tinha 23 anos quando fui diagnosticada com câncer de mama. Era super nova e tinha que lidar com a decisão de querer ou não coletar óvulos, pois precisava fazer um ciclo de hormônios e poderia ser arriscado. Até hoje não sei se quero ser mãe, mas coletei”, relembra a arquiteta Lívia Lopes.
"Dentre os impactos do câncer de mama em jovens, estão a questão da fertilidade, supressão da função ovariana e menopausa precoce, que são influenciadas pelo tratamento. Pacientes portadoras de mutações genéticas, mais comum em jovens, têm indicação de medidas de redução de risco, como por exemplo a retirada das mamas, e também a indicação de terapia sistêmica específica”, explica Gustavo Werutsky, oncologista e head científico do MAMA.
Um fato relevante é que pacientes jovens tendem a ter um subtipo de câncer de mama mais agressivo. “Isto exige um tratamento que, apesar de ser efetivo, impacta significativamente na qualidade de vida das pacientes, repercutindo na sua vida social, familiar e no trabalho”, complementa o médico.
Isso sem contar as questões ligadas à autoimagem e à saúde mental, especialmente após cirurgia e tratamento relacionados ao câncer. “Mesmo com apoio da família e de amigos, foi um momento muito solitário, porque eu era a única pessoa da minha idade que estava passando pelo câncer”, relata Lívia, diagnosticada em 2014.
Detecção de câncer de mama em mulheres mais jovens
Embora não tenha como prever quem terá câncer de mama, alguns fatores colocam as mulheres em maior risco: histórico familiar (mãe ou irmã) de câncer de mama ou ovário; ter feito radioterapia no tórax (por exemplo, para tratamento de câncer de pulmão), além da obesidade, o sedentarismo e o alto consumo de álcool.
Existem algumas etapas que você pode seguir, desde discutir seu histórico familiar de câncer com seu médico até fazer testes genéticos para identificar mutações dos genes BRCA1 e BRCA2, relacionados a um risco aumentado de câncer de mama e ovário.
“Historicamente a indicação de rastreamento com mamografia se iniciava aos 50 anos, porém recentemente o rastreamento foi indicado a partir do 40 anos pela U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF), dos Estados Unidos. Aqui no Brasil, entidades como Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR), Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) também fazem essa recomendação. Infelizmente, apenas 35% das brasileiras fazem rastreamento no sistema público de saúde e em torno de 70% no sistema privado”, pondera Gustavo.
MAMA MAG é uma iniciativa do MAMA. Semanalmente, publicamos entrevistas e reportagens sobre assuntos que conectam arte, cultura, tecnologia, saúde e bem-estar.
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Muito jovem para a mamografia: o câncer de mama antes dos 40
Se você tem menos de 40 anos, pode pensar que é muito jovem para ter câncer de mama – mas isso não é verdade. Embora raro, é o câncer mais comum entre as mulheres de 15 a 35 anos.
A doença está crescendo justamente na faixa etária que não é coberta pelos programas de rastreamento. Por consequência disso, há ainda mais em risco de descobrir a neoplasia quando ela já está relativamente avançada.
Desde 2020, a incidência da doença passou de 2% para 5% entre mulheres até 35 anos. Apesar disso, 25% das jovens não sabem que o câncer de mama pode afetá-las, segundo um levantamento da CoppaFeel!, instituição inglesa de conscientização sobre a doença. E elas são o grupo demográfico com maior probabilidade de adiar uma visita ao médico.
Ainda não existe uma forma eficaz de rastreio para mulheres com menos de 40 anos. Isso ocorre porque a maioria têm tecido mamário denso, o que impede que as mamografias de rotina sejam uma ferramenta útil. Há uma chance maior de um resultado falso positivo (a mamografia parece sugerir um câncer de mama onde não há) ou um resultado falso negativo (onde um câncer de mama presente não aparece na mamografia) .
Aliado a isso está o fato de que a maioria das campanhas de conscientização e prevenção não conversam com esta faixa etária. “O que é passado pela mídia é o básico, focando na questão do autoexame. Focam na mulher madura, de 40, 50 anos, e as jovens não têm representatividade e/ou incentivo para fazer um acompanhamento”, avalia Jéssica Custódio, de 32 anos.
Aos 17, Jéssica sentia muita dor e desconforto na mama. Ao investigar, descobriu que tinha nódulos benignos. Na época, conciliou o término do ensino médio, o estágio e a recuperação de uma cirurgia para a retirada dos tumores. “Foi bem chocante, foi bem difícil. Mexe com autoestima, a forma como você se vê. Sou de uma geração que o corpo, a estética feminina, eram muito julgados e padronizados. Então, foi muito difícil, assim, eu sempre me escondia. Colocar um biquíni, depois de passar pela cirurgia, foi muito difícil”, relata.
As vivências das jovens que passam pelo câncer de mama
No Brasil, mais de 3 mil mulheres jovens são diagnosticadas todos os anos e enfrentam desafios diferentes daqueles vividos pelas mais velhas. São as jovens que têm menor estabilidade financeira e também de carreira profissional. Muitas também têm filhos pequenos e não contam com rede de apoio.
O diagnóstico de câncer de mama também cria incerteza sobre ter uma família, uma vez que os tratamentos podem afetar a fertilidade e também a sexualidade da mulher. “Eu tinha 23 anos quando fui diagnosticada com câncer de mama. Era super nova e tinha que lidar com a decisão de querer ou não coletar óvulos, pois precisava fazer um ciclo de hormônios e poderia ser arriscado. Até hoje não sei se quero ser mãe, mas coletei”, relembra a arquiteta Lívia Lopes.
"Dentre os impactos do câncer de mama em jovens, estão a questão da fertilidade, supressão da função ovariana e menopausa precoce, que são influenciadas pelo tratamento. Pacientes portadoras de mutações genéticas, mais comum em jovens, têm indicação de medidas de redução de risco, como por exemplo a retirada das mamas, e também a indicação de terapia sistêmica específica”, explica Gustavo Werutsky, oncologista e head científico do MAMA.
Um fato relevante é que pacientes jovens tendem a ter um subtipo de câncer de mama mais agressivo. “Isto exige um tratamento que, apesar de ser efetivo, impacta significativamente na qualidade de vida das pacientes, repercutindo na sua vida social, familiar e no trabalho”, complementa o médico.
Isso sem contar as questões ligadas à autoimagem e à saúde mental, especialmente após cirurgia e tratamento relacionados ao câncer. “Mesmo com apoio da família e de amigos, foi um momento muito solitário, porque eu era a única pessoa da minha idade que estava passando pelo câncer”, relata Lívia, diagnosticada em 2014.
Detecção de câncer de mama em mulheres mais jovens
Embora não tenha como prever quem terá câncer de mama, alguns fatores colocam as mulheres em maior risco: histórico familiar (mãe ou irmã) de câncer de mama ou ovário; ter feito radioterapia no tórax (por exemplo, para tratamento de câncer de pulmão), além da obesidade, o sedentarismo e o alto consumo de álcool.
Existem algumas etapas que você pode seguir, desde discutir seu histórico familiar de câncer com seu médico até fazer testes genéticos para identificar mutações dos genes BRCA1 e BRCA2, relacionados a um risco aumentado de câncer de mama e ovário.
“Historicamente a indicação de rastreamento com mamografia se iniciava aos 50 anos, porém recentemente o rastreamento foi indicado a partir do 40 anos pela U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF), dos Estados Unidos. Aqui no Brasil, entidades como Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR), Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) também fazem essa recomendação. Infelizmente, apenas 35% das brasileiras fazem rastreamento no sistema público de saúde e em torno de 70% no sistema privado”, pondera Gustavo.
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